Vanessa Mazza


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Você acha que uma consulta de Tarô é feita por adivinhações?

Vanessa Mazza 13 de fevereiro de 2015

Talvez por causa da imagem que a mídia nos passa quando tenta retratar uma consulta de Tarô, fique esta impressão de que todo profissional, ao jogar as cartas, fique simplesmente tentando adivinhar o que está acontecendo com seu consulente usando mecanismos de linguagem manjados do tipo “jogar um verde para colher maduro”, falando coisas óbvias como “alguém lhe inveja”, “você gosta de alguém”, “você enfrenta desafios no trabalho”, etc.

Porém, uma consulta de Tarô, quando feita por um profissional sério, sai desses achismos para trazer detalhes mais úteis, que nem sempre são agradáveis de serem ouvidos, como o de que o consulente está sendo equivocado no seu comportamento dentro do casamento, por exemplo.

Portanto, a ideia de que estamos constantemente tentando agradar, dizendo apenas o que a pessoa já sabe ou quer ouvir, está longe da realidade. De fato, particularmente não vejo muita utilidade em agir desse modo. Seria o mesmo que você estar passando mal fisicamente, ir para o hospital, com medo de algo ser diagnosticado e o médico dizer que você não tem nada e mandá-lo de volta para casa. Ok, você até pode ficar feliz por isso, porém, continuará passando mal e, ao não saber o que tem, não haverá ferramentas à disposição para melhorar sua condição.

Ou seja, o objetivo de uma consulta de Tarô não deve ser o de testar o quanto alguém pode descobrir sobre você só olhando para sua cara e sim como ela pode lhe ajudar a tornar sua vida mais simples. Daí a adivinhação ser tão danosa, pois você vai à consulta, o profissional chuta 30 supostos fatos (muitos relativos a um tempo futuro longínquo), 2 acontecem e você o considera bom por causa desses 2, deixando de lado os 28 erros. Só que, só saber dos fatos não faz você corrigir seus erros de comportamento, não lhe ajuda a ser mais prudente ou sábio, não melhora sua convivência com outros, não contribui para a tomada de decisões mais acertadas. Para falar a verdade, a tendência é que você nem se lembre desses chutes e que toda a consulta se torne na sua memória apenas uma curiosidade, como um passeio que você fez com amigos no verão passado.

Consulta de Tarô não se constrói em adivinhações. Baseia-se em interpretação de cartas, dentro de jogos específicos, tendo como norteador uma pergunta objetiva. Desse modo, as respostas vão depender dessa configuração e não necessariamente da confirmação do consulente sobre elas.

Para isso ficar mais claro, darei alguns exemplos:

Já aconteceu de eu ler para uma pessoa e as cartas me mostrarem muita tristeza. Ao afirmar isso à consulente, ela negou veementemente, dizendo que era “muito feliz”. Estranhei, pois o que estava saindo não condizia com esta afirmação. Conversa vai, conversa vem, descobri que ela era casada e que seu marido a traia constantemente e que já havia batido nela. Ora, impossível uma mulher nesta situação ser feliz, mas seu estado de negação era tão grande que ficou tentando me enganar, mesmo com o que estava saindo.

Como as cartas mostram a verdade, inclusive a que o consulente não quer enxergar, fica patente que nem sempre o que sai nelas é evidente só de olhar a cliente. Afinal, se nosso trabalho fosse apenas adivinhação, eu nunca teria descoberto a realidade do casamento dessa mulher, pois tudo o que ela dizia no começo da consulta dava a entender que estava tudo bem na sua vida. É certo que, se eu tivesse dito que estava tudo ótimo mesmo e que o marido dela a amava, ela teria ficado muito feliz com minha consulta, porém, isso não teria resolvido nada. Para mim, isso sim é dinheiro perdido.

Outro exemplo é o de pessoas que sabem que uma pessoa não irá ficar com elas, mas que pagam inúmeros profissionais para ouvir uma mentira: “sim, ele vai se separar para ficar com você”, “sim, ele ama você, mas tem uma amarração que os impede de ficar juntos”, “sim, vocês são alma gêmeas, mas faz parte do destino dos dois sofrer muito antes de ficarem juntos”. Aí, chega a minha vez, eu tiro as cartas e sai, salvo raras exceções: “Não, ele não gosta tanto de você assim”, “Não, ele prefere ficar com a mulher”, “Ele até gosta de você, mas é imaturo e não decidirá nada”, “Vocês até podem ficar juntos, mas o relacionamento não tende a ser o que você espera”. Neste ponto, a cliente fica surpresa e diz: “Mas todas as outras disseram que íamos ficar juntos, etc”, o que me faz pensar: “Ora, se isso fosse tão certo e claro como o dia, porque estaria ela tentando se convencer disso, fazendo uma consulta atrás da outra?”.

Quem ama e sabe que é amado, não precisa muito de comprovação.

Enfim, fujam de adivinhações ou pelo menos tenham clareza de que estão pagando por isso, uma brincadeira, um jogo e não por uma consulta de Tarô.

Crédito da Imagem: Mykola Pymonenko ‘Adivinhação natalicia’, 1888.

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