Vanessa Mazza


0

“Os Miseráveis” e as facetas do Enforcado

Vanessa Mazza 4 de fevereiro de 2013

Em cartaz nos cinemas brasileiros atualmente, o filme Os Miseráveis, baseado em essência no livro homônimo do autor francês Victor Hugo, mas em estrutura no musical da Broadway, narra a estória de um ex-condenado (Jean Valjean) que, no século XIX, após roubar um pão, é condenado às galés, um sistema de prisão que consistia em trabalhos forçados e repetitivos. Como seu crime tinha sido o ato desesperado de um homem faminto, Valjean se enche de revolta e nunca se contenta com aquela vida. Então, tenta fugir muitas vezes, o que ironicamente só aumenta sua pena. Assim, 20 anos se passam e um inocente homem, agora transformado em bruto,  recebe a carta de libertação que, tal como a alforria dos escravos, não servia praticamente para muita coisa, posto que ninguém, em toda França, aceitaria dar trabalho a um criminoso.

Apesar disso, depois de andar um tempo sem rumo, Valjean tem um encontro profundamente espiritual com o um bom padre, que, através de seu exemplo, muda sua percepção da vida, fazendo-o perdoar seu passado e desejar ser um ser humano melhor. Desse modo, ele muda seu nome, resolve esconder seu passado criminoso, se torna comerciante e, devido aos seus talentos, enriquece e logo é indicado ao posto de prefeito de uma pequena cidade do interior. Mesmo cheio de poder, ele mantém a castidade, uma vida simples e austera, transmitindo justiça e caridade a todos.

Até aí, tudo muito bom. Porém, como todo drama precisa de um conflito, chega a esta cidade o inspetor Javert, que trabalhara um tempo nas galés e sabia que Jean Valjean havia sumido do mapa, o que, por si só, já o transformava em criminoso novamente (tal como alguém que não tivesse comparecido ao agente da condicional). Obviamente que agora existe uma larga distância entre o homem sujo, ignorante e mal-cuidado e o elegante e sério prefeito. Por isso, apesar do gelo que o ex-condenado sente na alma, o inspetor não parece reconhecê-lo. De todo modo, o dilema se forma: até onde ele terá que ir para conservar sua nova vida?

Resolvi analisar este filme sobre o prisma do Enforcado por causa do fato de ser tanto uma carta de mágoa, ressentimento e prisão, seja emocional, seja física, quanto de abnegação e sacrifício por um bem maior. Se, por um lado, Jean Valjean foi vitimizado de muitas formas e teve sua vida em suspenso quando foi capturado, depois que se libertou, ele continuou preso, tanto ao remorso quanto à vontade de se sacrificar para apagar este passado ruim com boas ações. E assim se manteve, ao longo de toda sua trajetória. Então, enquanto que metade da sua vida foi uma recusa à paralisação forçada, a outra metade foi uma busca constante pela renúncia e tranquilidade. Ou seja, o movimento da não-aceitação para a total redenção do Enforcado.

Mesmo assim, não só Valjean foi tomado pela energia desta carta. O inspetor Javert com sua obsessão também. Afinal, ele sabia que o ex-condenado merecia a liberdade, já que fizera mais bem que mal, porém, não conseguia deixá-lo livre por estar totalmente apegado a uma ideia equivocada de justiça.

E o que tiramos de lição disso tudo? Que em primeiro lugar, sempre existe salvação para quem de fato se redime; segundo que devemos ir de acordo com nosso coração, mesmo que as ideias e leis de nossa época não concordem conosco, pois, mesmo que roubar um pão seja errado, como condenar à cadeia uma pessoa que morria de fome? E terceiro, se a vida nos coloca numa situação aparentemente sem saída, a sabedoria do Enforcado pede que simplesmente soltemos o corpo e aceitemos humildemente nossa situação. É bem possível que neste relaxamento, as coisas fiquem claras e tudo se resolva por si mesmo.

Por fim, apesar de não ter amado este filme, recomendo a leitura do livro em sua versão íntegra de praticamente mil páginas. Quem aceitar o desafio verá quanta sabedoria pode se extrair das dores de todos os personagens dessa saga.

Deixe um Comentário

Login to your account

Can't remember your Password ?

Register for this site!